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O Narciso Amado De Todos Nós

31 JAN 2019
31 de Janeiro de 2019

Zanettini é extremado, gentil, doce e sombrio, e, em cada música de seu inteligente manifesto emotivo, adiciona um belo conto para o Livro dos Nossos Dias Tristes e Eufóricos. Sua entrevista é tão honesta e bonita, quanto sua arte maravilhosa, cortante e experimental.


A melancolia faz parte do seu trabalho musical e lírico. Mas a melancolia te leva pra boemia e daí para a alegria. Como é o teu processo de composição?

Tudo é material para composição, o que faz com que eu sinta que estou trabalhando o tempo todo. Isso às vezes me pesa, torna-se um fardo. “Tristeza e alegria, êxtase e melancolia / uma hora temos que descer mas a aterrissagem deve ser macia”, eu digo em uma das minhas canções, “Abstinência”. A despeito do extremo narcisismo em se auto parafrasear, acho que resume bem o meu sentimento a respeito desses processos. Às vezes sentir TUDO o tempo todo equivale a não sentir nada. Por isso tenho esse cuidado de compartimentalizar tanto a minha tristeza quanto a minha alegria, porque eu não sou nem uma coisa nem outra. Eu gosto da pessoa que eu sou hoje, mesmo com essa cabeça fodida.

Quanto te custa espiritualmente e psiquicamente te expor em tua música?

O preço é altíssimo, eu fico completamente drenado. Mas não sei fazer de outro jeito. Ou melhor, a música não sabe fazer de outro jeito. Eu não tenho controle algum sobre a musa. Para manter o meu interesse, precisa ser completamente intuitivo. Depois eu posso arranjar mil teses, mil tergiversações, mas quando a música vem é quase que uma manifestação espírita. Eu entendo que, até para resolver questões de ego (o “fazer bonito”), é mais saudável para mim pensar nas músicas como entidades próprias. Elas vêm como elas vêm e era isso, não sou de ficar burilando canção. Eu não sou autor de nada. Para mim, funciona melhor quando é catártico. E a música é e sempre foi ou deveria ser uma forma de libertação. Só que todo processo de libertação é profundamente doloroso porque necessário confrontar zonas bem obscuras dentro de si. Por isso o preço é bastante alto, a música não vai me trazer popularidade, vou fazer alguns inimigos, em alguns aspectos vou me foder bastante, mas eu arco com as consequências disso. Porque alguém precisa fazer isso, dizer essas coisas.

Tua música não é nada óbvia. A maioria das pessoas (mesmo as que se dizem alternativas)só sentem-se confortáveis com o óbvio. Isso te preocupa como artista?

Nem um pouco. Como desde o início ficou claro para mim a completa desassociação com qualquer forma de comercialismo, minha definição de sucesso passou a ser eu conseguir ser tão autêntico quanto eu conseguir sê-lo. Óbvio que fracassei nisso e provavelmente fracassarei pelo resto da minha vida, mas mantenho um sorriso no rosto.

Quem faz música do teu agrado próximo e ao redor de ti?

Ex, Fernie Canto, R. Fernandez & as Danças de Salão, Daniel Tree, Allseeone, Bramir, Pablo Sotomayor e todo e qualquer projeto no qual tu esteja envolvido, Cidade. Não é Berlim anos 70, não é Nova Iorque fim dos 60, não é nem sequer a Swinging London, é Porto Alegre 2019 e eu estou muito satisfeito com isso.
Dois nomes pra ti falar sobre: Madonna e Yoko Ono.
Fico putíssimo que duas artistas que trazem tanta positividade para o mundo causem reações tão violentas e negativas da sociedade como um todo. Mas sabemos bem por que isso acontece, não? São duas figuras essenciais para compreender a cultura do século XX e suas extensões. Vejo uma relação muito clara entre ambas: dois espíritos livres, uma japonesa e uma ítalo-americana que se estabelecem em Nova Iorque e nem tão acidentalmente assim terminam por mudar o mundo. Acho curioso que ambas fizeram de tudo mas atualmente estão em um ponto muito parecido em suas carreiras, unindo música eletrônica e ativismo. E, claro, servindo de inspiração para toda uma nova geração. Especialmente a Yoko. Só gente babaca não gosta da Yoko.


DISCOGRAFIA EM:  https://zanettini.bandcamp.com/


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