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Ventiladores de teto / Parte 2

23 NOV 2018
23 de Novembro de 2018

Então, Ruth chegou. Translúcida como um anjo e sorridente como alguém que verdadeiramente saca a vida como uma pluma. Ruth com sua alma vibrante e sorriso/abraço. Pediu uma cerveja e um conhaque pra mim. Foi atendida. Creio que na época era difícil dizer-lhe não. Era uma época de brutalidades e liberdades autorama.
Sem desejos proféticos. Sem iluminações de uma realidade maior que nos elevasse e nos levasse ao choro majestoso de uma troca de forças entre o céu e a terra. E Ruth era gentil e simples no que isso tem de mais complexo e beatífico.
Sei que Ruth tinha suas dores. Ninguém que vem a esse plano astral está sem dores ou sem culpa. Mas tal dor e culpa não lhe coibiram a doçura nem lhe impuseram a loucura como forma de cromossomos angélicos rompidos. Ela estava com uma amiga na fila de promoção de eletrodomésticos e foi ter comigo pra que o tempo fosse menos tempo. Falamos dos assuntos de sempre. Amigos comuns, música (Iggy Pop / Lou Reed / Bowie, claro), meu casamento sem oxigênio, meu amor sem aptidão para amar, sobre profetas bondosos que são estômagos vorazes de poder. Falamos. FALAMOS. Cansamos de falar. Estava um calor insuportável e decidimos ir para um hotelzinho próximo descansar. E fomos. Deitamos na cama e olhamos pro ventilador de teto com suas pás se movendo como na cena do surto de Martin Sheen em Apocalipse Now. E ali ficamos dentro da respiração. Saindo do corpo pra não termos o corpo.
Pra não sermos o corpo. Nossas auras e encarnações dividiam o descanso naquele quarto caixinha. E, assim, continuamos a falar num transe de camaradagem ancestral numa mente nova, num mundo novo.
Saímos do transe com a chamada da amiga radiante com seu ventilador novinho. As horas de uma epifania são só imaginadas nunca cronometradas. Nem mesmo contadas. Ruth ainda me salvaria várias vezes de mesas de bares por Porto Alegre. A amizade é o único espólio divino que temos como nosso. No mais nosso. Desperdiçá-lo não nos cabe. A amizade é o amor maior.

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