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BLEFF- A persistência como Arte

06 OUT 2018
06 de Outubro de 2018

Conheço Júnior Garcia desde sempre. eu acho. Viemos do mesmo bairro, Feitoria, e da mesma turma de outsiders. Fizemos militância política juvenil juntos nos anos 90 e dividimos o palco várias vezes. Ele não para e não espera. Segue em frente com todas variáveis contra e uma nova formação da Bleff.

Como é fazer música e se preocupar em passar uma mensagem ou conforto hoje em dia?

Particularmente faço um deslocamento entre ativismo cultural e estética artística, embora algumas vezes isso possa encontrar-se em um mesmo movimento. Acredito que a mensagem vem como uma forma de comunicação instintiva, nesse caso, a composição ganha uma forma natural ao sabor de quem está propondo a música e após vai ganhando a simpatia de quem se conecta com ela por algum motivo. Acho que a única forma que eu sei escrever música é percorrendo caminhos num mix desconexo porém temático, talvez esse “pano de fundo” é que tenha o potencial de chegar nas pessoas... Rola sim uma preocupação de não ser óbvio ou simples, isso do ponto de vista dos desdobramentos e possibilidades de reflexões sobre o material, acredito que a ideia sempre foi abrir para múltiplas interpretações a partir de narrativas sentimentais/sensoriais (isso no que se refere a letra). A música, no caso da BLEFF, normalmente vem depois, ela dá o clima necessário para envolver a letra.

A palavra CENA não se desgastou já com tanto uso jocoso?

Nunca foi adepto do uso da palavra “CENA”. Não sei explicar essa falta de simpatia com o uso devido da palavra e a conotação que sempre esteve no nosso entorno. Tenho pensado ultimamente que a “CENA”, tanto por “sua razão de ser”, como por emprego da palavra, deveria ganhar nova força. Um resignificado para o fortalecimento de um novo momento para a música (local/nacional/independente).

Tu através do teu trabalho com educação, tem contato com adolescentes. O rock perdeu o contato com as ideias desses adolescentes?

Não sei explicar verdadeiramente uma resposta para essa pergunta. Sinceramente, necessitaria de uma pesquisa para ter responsabilidade na resposta. Arriscando, eu diria que o rock anda lento, diferente de outros “estilos e sonoridades”. O rock tem muita repetição e falta espontaneidade (talvez), isso o deixa cada vez menos efêmero e quando vai pra gravações, muitas coisas parecem perder a essência... A gurizada está muito na velocidade e nas conexões digitais da internet. Querem lançamentos constantes e novidades. Por outro lado, existe uma lógica mercadológica que sempre impões o ritmo. Nesse ponto, falta um expoente nacional junto a grande mídia para representar o rock. E isso faz perder força justamente nessa gurizada das escolas. O investimento de mídia que se faz para emplacar nomes na música realmente surte um efeito de conquista na galera mais nova (jovens). Então, eu diria que tem essas duas vias, uma culpa de quem está fazendo rock e outra dos investidores do ramo, juntando isso, não renova o público desse nicho (pelo menos nacionalmente e em um público consumidor numeroso).


Fala de como a BLEFF se formou e como ela opera.

A BLEFF está sempre em formação, seja no campo das ideias ou mesmo de integrantes... Atualmente a gente tem feito muitos shows sem passar por processos de ensaios e isso tem nos deixado mais espontâneos com uma pitada de
improvisação. Isso nos renovou internamente, quando ensaiamos, acaba sendo um encontro pra fazer o que mais gostamos: CRIAR e TOCAR. Por outra via, a banda opera numa lógica do ativismo cultural. Trabalhamos pela renovação das pessoas, tanto para estimular um circuito local como mais ampliados, com câmbios entre bandas/agitadores culturais/artistas de outras localidades. Desde o início da banda foi assim: fazendo contatos, propondo parcerias, montando shows com convidados, articulando pequenos festivais... Acredito que a gente se ligou logo no início da banda, que nossa escolha, seria por uma opção de carreira mais coletiva, sempre tendo mais gente junto (amigos, outras bandas, pessoas com ideais de resistência cultural com preferência para quem atuasse com o rock). Então a banda sempre foi um mistura de arte e movimento.

Everton Luiz Cidade é músico e escritor. 
Publicou os livros: Santo Pó/P, O Bonde Transmutóide, QuiÓ e ApareCida.

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