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A arte deve alimentar-se de arte e servir a ela mesma

08 SET 2018
08 de Setembro de 2018

Gilnei Lucas, Patrono da Feira do Livro de São Leopoldo 2018, lançará nesta segunda-feira, dia 10 de setembro, durante a Feira, seu livro Sarau Underground. O livro é de um encanto duradouro. É daqueles livros que serão relidos sempre com o mesmo frescor. Poesia abrangente e bela. Traz, ainda, xilogravuras lindas e tocantes de Luis Brasil, artista iluminado que já fez sua passagem.


Confira abaixo a  entrevista:


Como é ser patrono de uma feira do livro de uma cidade que tem tantos escritores em ebulição atual?

Primeiramente, é uma alegria imensa e uma grande honra. São Leopoldo é um celeiro de grandes escritores e um polo artístico e educacional. Daqui a seis anos a cidade completa o seu bicentenário. Duzentos anos de uma história pautada na produção cultural e no ensino de altíssima qualidade. Isto tudo torna esta indicação uma tremenda responsabilidade, mas ao mesmo tempo nos deixa muito felizes. Mais ainda, pelo reconhecimento e indicação de um artista que contribui muito e efetivamente, mais como instrumento da literatura do que como escritor, no conjunto de seu trabalho até aqui.

Nunca se teve tantos saraus nos últimos anos como agora. Mas parece que às vezes a poesia fica em segundo plano em relação à política. Como ser político e atuante, sem que a poesia se torne mero pretexto político?

Temos que estar bem atentos ao tipo de produção a que nos sujeitamos. Consciência é fundamental. Não se pode reduzir o artista a chamariz para os interesses politiqueiros. A arte traz consigo, de forma inerente, as marcas do seu tempo. Anseios, alegrias, frustrações, lutas, conquistas. A arte deve alimentar-se de arte e servir a ela mesma. Deve perpetuar conhecimentos, ensinamentos e vivências de forma lúdica e assim compor a cultura de um povo. Este é o seu foco.

Esses saraus podem levar a um esgotamento do interesse pela poesia ?

Com certeza! Não se deve desgastar a imagem da poesia nesses eventos escrachados com terceiras intenções. Além disto, as produções de todos os Saraus devem ser encaradas com todo o respeito e profissionalismo. Tratando cada obra apresentada como um espetáculo. Com qualidade de som, luz e ambientação adequada ao que se propõe. Pode ser até à capela, à luz de vela, mas com planejamento e estética. Acho contraditório, por exemplo, o sarau num bar. Onde as pessoas vão para beber e bater papo. O foco ali, não é o conteúdo a ser apresentado no palco. Como já disse, o ambiente e a formatação propícios são partes importantes de uma estratégia para tornar o Sarau atraente e agradável.

Tu te vê como menestrel (também te vejo assim). Fala do teatro e da música em tua vida. Sou o resultado da convivência e aprendizado com grandes artistas.

Recitei poesia em público pela primeira vez aos quatro anos de idade, no Instituto Espírita Alfredo Silveira Dias, onde meu avô conduzia as palestras. Iniciávamos dizendo: "Vou recitar a poesia intitulada"... e finalizávamos com: "tenho dito". Desde então, tive por hábito fazer versos. Desde a adolescência, um bloco de texto e desenho faz parte dos alfarrábios.

Aprendi violão com um grande menestrel, o maior que já passou por aqui: O saudoso Paulo Pink. Com ele convivi dentro e fora dos palcos. Sentia grande satisfação em levar ao seu lado, cantando em uníssono, ou com divises de voz, suas grandes canções pelo vale e afora. Conhecia sua obra de cor.

Fui seu pupilo. Ele era dez anos mais velho, aprendi a ser músico de apoio, a tornar o sonho de alguém realidade e ficar realizado com isto. (Pude acompanhar assim outros compositores, como apoio e em parcerias). Com Umberto Pinheiro, depois, segui meu aprendizado de violão e música. No movimento coral, com Luiz Carlos Andrade e as professoras de técnica, Rose Drexler e Mariah Colling, do coral Rio dos Sinos, que depois veio a ser Fundação Cultural de São Leopoldo, me tornei ciente do "instrumento vocal", sua anatomia e funcionamento.

Conheci e fiz algumas oficinas, em meados dos anos 80, com o ator e diretor Vladimir do Carmo. Sem dúvida, grande educador de teatro deste estado.  Fundador do Geração Bugiganga, conhecida oficina que formou e, até hoje, fomenta, sob o comando do professor Marcelo Schneider, centenas de atores e amantes do teatro em nossa cidade. Dali nasceram, também, outras vertentes do ensino teatral, como Anita Coronel e Samuel Santos, idealizadores da Trupe, grupo e escola de teatro capilés, com quem tenho algumas parcerias até hoje. Nos anos 80 também, trabalhei com Jô Santos.

Um tempo depois, tive o privilégio de integrar e ser treinado pelo Theatro Vanguarda, hoje com 25 anos de estrada. Conhecendo, então, Ednezer Ritter. Fértil dramaturgo, ator e querido amigo. Capaz de criar lindas e envolventes fábulas com os assuntos mais improváveis de um conteúdo didático. Ali, pude conviver e trabalhar com quem eu admirava no palco, Marcelo Britz, Tchacaruga de Paranaguá, Emilene Eluza, Gleidi Perez, Angélica Ritter, André Qxo, Dani Reis, Claudio Luza... Novos talentos, Gleidi Perez, Dani Reis, Cácian Castro.

Durante dez anos, nos apresentamos pelo estado, em incontáveis apresentações para diversos públicos. Neste período, também conheci e trabalhei com os atores e dramaturgos  Totonho Lisboa e Leandro Coimbra.
Atuei e ainda atuo, toco e canto, com violão e voz, em dupla, trio, quarteto, quinteto, sexteto... com o que tem de melhor entre os artistas desta cidade.

E foi assim, durante esta caminhada. Convivendo, criando canções, poesias, trilhas sonoras. Escutando muita música, lendo, assistindo teatro, vendo belas pinturas e aprendo a ser instrumento do diretor, do regente, do compositor, do escritor, enfim... da literatura.

Acho que a isto se deve minha indicação.

Me vejo, como tantos, um trabalhador da arte. Agora reconhecido, com orgulho, como cidadão, artista, na terra onde nasci, cresci e cantei...

Porque não aceitar este teu carinho ao me chamar de repentista ou menestrel?


A 33ª FEIRA DO LIVRO RAMIRO FROTA BARCELOS acontecerá de 10 A 16 DE SETEMBRO DE 2018, na Praça Tiradentes, no Centro de São Leopoldo.

Everton Luiz Cidade é músico e escritor.
Publicou os livros: Santo Pó/P, O Bonde Transmutóide, QuiÓ e ApareCida.

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