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Uma conversa com a ativista social e produtora cultural Pri Michelon

01 SET 2018
01 de Setembro de 2018

FALA UM POUCO SOBRE TUAS PRODUÇÕES CULTURAIS E DO TEU INTERESSE POR ARTE, JÁ QUE ESCREVES E TOCAS TAMBÉM.

Desde 2002 vivo no meio e tenho conhecimento da existente cena underground, sempre tive preferência por tudo que vem do viés alternativo, mas somente em 2014 pude me aproximar e conhecer melhor a cena de São Leopoldo e região metropolitana. Ao fim de 2016 que um amigo, o Célvio Derbi me falou, “vai e faz”, ele me disse que o Vale dos Sinos estava carente de uma feira bem feita e agregadora. Foi aí que as ideias surgiram e as possibilidades se mostraram.

Então, em 2017, surge a Feira Autônoma São Hell, que uniu tanto a cena underground indie rock, como as cenas do movimento Hip Hop, do punk, pós-punk e até mesmo a nova MPB do RS, como eu gosto de chamar.
A Feira Autônoma São Hell foi um projeto que teve o intuito desta união, mas principalmente com o intuito de levar artes gráficas, culinária, artesanato, literatura, música e poesia a toda população de forma gratuita. Tivemos 5 edições da feira e foi uma ótima experiência.
A feira acontecia de forma bimestral na Embaixada do Rock aqui no centro de São Leopoldo, onde fechávamos a rua e conseguíamos colocar em torno de 30 expositores, entre eles brechós, sebos, fanzineiros, artistas gráficos e quadrinistas, culinária vegana e vegetariana e, pra quem é carnívoro, também tinha culinária tradicional, assim como doceiros, cachaça e chopp artesanal.

Dentro da Embaixada do Rock passaram pelo palco da Feira muitas bandas, todas autorais e de ótima qualidade, assim como passaram muitos grupos de Rap, todos impressionantes e com qualidade a nível nacional e internacional - sou suspeita pra falar do underground autoral do RS e contracultura, pois sou apaixonada por descobrir novos sons e tudo que é vendido de forma autônoma me fascina.

Foto: Alessandra Padilha

Neste ano (2018), montamos o C.R.U.A. (Coletivo de Resistência Unificada Autônoma) com o intuito de nos unirmos as pessoas que já fazem parte de outros coletivos, outras cenas e outras cidades, e a palavra RESISTÊNCIA se tornou um mantra pra mim, pois vivenciando os dias de hoje e vendo a crescente retomada do fascismo no Brasil, onde tudo pode ser reprovado aos olhos mais conservadores, eu como ativista feminista, fã e defensora do movimento LGBTQ+, apaixonada pelas artes em geral, não poderia me abster da luta. Então uni forças com amigos como David Araújo, Mano Vini, Caroline Timm e outros.

O primeiro projeto do C.R.U.A. foi a 1ª Virada Cultural de São Leopoldo, que foram dois dias de muitas atividades como rodas de debates, oficinas, sessões de curtas-metragens, diversos expositores autônomos e 20 atrações musicais autorais e covers instrumentais de perfeição como a banda Oferenda que encerrou um domingo que previa chuva, mas que fez sol, como muitos dos eventos que fiz.

Agora o C.R.U.A. está em parceria com prefeitura da cidade para a realização de dois dias da 33ª Feira do Livro de São Leopoldo, mas continua atuando da mesma forma autônoma, pois trabalhamos pelo e para os trabalhadores autônomos, pais e mães de família que viram seus direitos trabalhistas indo pelo ralo do esgoto político do país e que hoje se sustentam, muitas vezes, apenas de forma autônoma. O C.R.U.A. abre o espaço dentro da Feira do Livro para que todos os expositores autônomos possam expor seus trabalhos autorais e artesanais de forma gratuita, gerando visualização, reconhecimento e autossustentabilidade.

Isso é a valorização do trabalho autônomo e local, criativo e colaborativo, é a articulação intercomunitária e coletiva, é a troca de conhecimento e de experiências, o intercâmbio cultural e comunitário que o C.R.U.A. prioriza e carrega como bandeira, é sim um braço espião anarco infiltrado hoje no sistema, mesmo que muitos não saibam (risos).
Durante a Feira do Livro receberemos grandes nomes da cena HQ do RS. No dia 16 (domingo) de setembro, a partir das 16h teremos um bate papo sobre o HQ e literatura no Brasil de hoje com nomes como Gabriel Renner, Diego Gerlach, Fabiano Gummo e Ron Selistre Você já está convidado a participar Cidade! Sabe disso, né?? Esta parte do evento é também uma vitória para o C.R.U.A., com certeza.


As artes sempre me fascinaram e eu sempre cantarolei e decorei músicas com facilidade, porém nunca tive oportunidade financeira de estudar música. Meu primeiro instrumento foi uma gaita 8 baixos que meu pai (tradicionalista e conservador) me deu quando eu tinha 8 anos. Depois vieram a gaita de boca roubada do meu irmão, o teclado, até mesmo o violão e a guitarra que usava escondida do meu irmão, que comprou pra tentar montar uma banda, que nunca saiu dos seus sonhos. Os instrumentos sempre foram mais meus do que dele, na realidade. Inclusive comprei um teclado recentemente para poder fazer parte de uma banda que amei durante todo tempo que durou (Aparecida). Minha primeira banda foi um cover ruim de Guns n’Roses, que durou 10 meses. Agora estou sem tocar, mas a poesia ainda faz parte dos meus dias.

Às vezes, recebo convites para leitura de poesias e sempre os aceito, pois acho que a poesia é algo que pode transcender as dores e alegrias da alma de forma literária, simples e coloquial, isso dependendo muito do momento em que você a recebe e escreve. Uso a poesia como forma de expor meus sentimentos e poder esclarecer a ideia do que ocorre comigo e no mundo, na minha própria mente. Poucos sabem, mas isso foi recomendação da minha psicóloga aos 12 anos de idade, durante uma crise familiar que tive na casa dos meus pais. 

É POSSÍVEL FAZER PRODUÇÃO CULTURAL COM MAIS AMOR E COMPROMETIMENTO, DO QUE GRANA?

Acredito que se for de forma valorizada e levada a sério, com dedicação e comprometimento geral pelos próprios envolvidos como expositores, atrações musicais, organização e equipes de apoio, sim é possível. Porém, muitas vezes, mas não sempre, e é bom deixar claro, os próprios envolvidos não colocam seus esforços para que aconteça o evento. E digo com conhecimento de causa, que não é por ingratidão ou desmerecimento que o fazem, mas por não saberem o quanto pode ser frustrante e desgastante pra quem faz, o planejar, organizar e desenvolver um projeto cultural hoje no Brasil. Com certeza, já deve ter sido pior em outras épocas, por falta de meios de comunicação como a internet e redes sociais, mas, mesmo tendo tudo ao alcance das mãos, mesmo sendo de forma gratuita, hoje ainda é difícil mobilizar as pessoas a tomarem para si os espaços públicos e dali tirarem seu sustento, seu lazer, sua diversão, gerar e consumir mais da sua própria cultura de sustentabilidade.

Isso leva muitos produtores e produtoras, fomentadores da cultura a desistirem, ou a partirem para os projetos de eventos patrocinados, apoiados por leis de incentivo a cultura, ou a eventos com cobrança de ingresso, que acho muito digno, pois há entre os músicos, artistas e nós produtores, muitos que sobrevivem da sua arte e da sua produção. Mas a cobrança de ingresso acaba excluindo, até certo ponto, aqueles moradores de periferias, os desempregados que os números mostram, são mais de 15 milhões hoje, ou abaixo da linha da pobreza, que ainda existem no país. Os exclui de fazerem parte do meio mais plural para a sua cidadania, que é o meio cultural. Isso gera um desnivelamento cultural imenso e mantêm viva a cultura de massas, difundida pelos meios de comunicação convencionais como a TV.

Não é fácil manter- se neste meio e eu pretendo firmar minha bandeira na produção independente, com certeza, porém, é necessário poder sustentar-se a partir disto, e é por isso que os planos com o C.R.U.A. são a fomentação da cultura em diversos locais, não apenas na nossa cidade.

COMO É LIDAR COM OS EGOS DOS ENVOLVIDOS EM EVENTOS DO UNDERGROUND?

Na verdade sou tão desligada às vezes, que não percebo os egos. Os vejo durante o processo final e, na maioria das vezes, a palavra da organização se sobrepõe aos egos, até porque o legado autônomo e minhas veias no anarquismo fazem dos meus princípios algo a ser imposto de forma branda e justa, tentando sempre acolher e incluir todos que posso, deixando bem claro qual é o intuito das nossas ações como organização e coletivo. Eu não vejo algumas exigências como ego, mas sim como demandas necessárias, às quais sempre tento sanar da melhor forma possível.
Sinto mais o ego inflado de muitos que agem como se nunca tivessem feito parte do underground, ou acham que já saíram dele. Imposição de cachê fixo não é crime para nenhuma banda ou atração, seja ela musical, teatral ou até mesmo palestrante, porém, deve-se ter noção e conhecer a causa para a qual se está sendo convidado, para saber se deve cobrar, ou não, uma exorbitância de cachê. Mas, este é o meu pensamento, o pensamento deste tipo de artista é outro: trabalho e apenas isso, sem luta pela difusão da cultura e sim o capitalismo e profissionalismo da arte, ou seja, não é mais underground. Respeito isso, e, talvez, um dia eu consiga trabalhar com este tipo de artista, hoje ainda não conseguimos, e mesmo que eu consiga um dia, meus eventos gratuitos ainda irão existir, pois a arte, música e cultura fizeram de mim alguém melhor e é nisso que acredito: a cultura como um instrumento de luta e geração de conhecimento. 

QUAIS AS DIFERENÇAS, SE EXISTEM, ENTRE A CENA DE SÃO LEOPOLDO E AS OUTRAS CENAS?

Depois do domínio das redes sociais, whatsapp e youtube, percebi o quanto a São Leopoldo de antes ainda continua viva e ativa. São tantos artistas, tantas bandas, tantos grupos de Rap, bandas de metal, tantas escritoras e escritores, poetas e poetisas, artistas plásticos, quadrinistas, artesãos, atrizes e atores... tanta arte de qualidade e beleza que não consigo contabilizar o número de conhecidos que hoje fazem arte e sobrevivem dela, que são da cidade e moram aqui ou saíram daqui. A nossa São Leopoldo sempre se manteve viva e acesa, com toda sua efervescência, mesmo em tempos de crise, seja ela moral ou financeira, mas crise de criatividade e iniciativa para projetos na área cultural, essa crise a nossa cidade nunca teve. 

A qualidade do underground capilé também é algo respeitável e notável, você pode ir à Caxias ou à Gravataí, pode ir a outras cidades da região, mas aqui em Santa Hells, como chamamos, ou São Léo, você nunca vai ouvir ou ver o mais do mesmo, nunca vai sentir um timbre plagiado, ou um verso transformado por outro artista. Você vai sentir só o que ainda não ouviu, ou aquilo que pode ser inovador, ou com suas raízes bem firmadas em uma única vertente musical ou artística. Sempre de boa qualidade e com algum diferencial. Até mesmo quem vem dos grandes centros, pode aprender um pouco aqui, não desmerecendo as demais cenas e cidades, mas eu nunca vi uma banda nascida e criada em São Leopoldo fazer algo ruim de se ouvir, ou a mesmice de alguns projetos que ouço de outros locais, inclusive do país, isso que recebo muitos áudios e indicações online, sempre que encontro algo que é bom e não é daqui, eu publico nas minhas redes sociais, porque pra mim o importante é ser autoral, underground e de qualidade. 

Já fui a shows em outras cidades com bandas de outras cidades, pois já passei algum tempo nelas ou viajei até lá, incluindo a capital Porto Alegre, e sim, já me decepcionei e já tive surpresas incríveis e fascinantes, mas em relação quantidade e qualidade, pode parecer bairrismo ou que eu esteja tentando puxar a brasa pra nós aqui, mas de que São Hell é um laboratório desenvolvedor do Underground do Brasil,  disso não tenho dúvida nenhuma. Quer uma prova disso? Só parar para relembrar quantos bairros temos e quantos estúdios e salas de ensaio e gravação temos por cada bairro. Acho que se fossemos fazer uma média comparativa, talvez ganharíamos até mesmo de Porto Alegre, pois aqui (em São Léo), eu não lembro de um bairro que não tenha, no mínimo, um ou dois estúdios de criação, ensaio e gravação musical, fora isso, não contabilizo o número de pessoas que são agitadoras ou produtoras culturais a trabalho do Underground.  Isso é o que torna a cena de São Leopoldo diferente, porém no momento, um tanto quanto saturada de eventos, chegando muitas vezes as agendas dos eventos caindo no mesmo dia, isso torna a cena mais enfraquecida em número de público, mas também aquecida em número de eventos a disposição desse público, podendo este escolher. Por isso tudo, vejo a importância de não se limitar apenas a São Leopoldo, existe muita música a ser descoberta por nós em outras cidades, estados e países, o que não podemos é deixar de procurar e consumir a arte em geral que nos apresentam.


Everton Luiz Cidade é músico e escritor.
Publicou os livros: Santo Pó/P, O Bonde Transmutóide, QuiÓ e ApareCida.

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