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A Babilônia quedará pela cyber Periferia

17 AGO 2018
17 de Agosto de 2018

Maceduss e as desajustados bando é uma não banda de não música. Faz vírus de linguagem e virais musicais. São os revolucionários incorretos de uma SÃO HELL criada por eles mesmos num banzo futurista. Seguem a estética da preguiça, da não ação. É Macunaíma no samba noise.

Foto: Diorgenes Pandini

O noise seria um radicalismo ainda de vanguarda, visto a adesão de vários artistas a ele?
 
O noise hoje é o novo pop! Tanto é assim que quase tudo que é artista tem usado - mais esteticamente que eticamente - um pedalzinho de distorção. Gostam de colocar um barulhos no meio da música (mas nada muito radical, para não assustar). Assim como existe um tipo de noise playboy. De noise gourmet (a gente é obrigado a falar as coisas em inglês, isso é um saco também: diríamos então um barulho-burocracia). Ano passado tocamos em um lugar em SP que é especializado em noise e experimental (vê se pode isso?). Os caras querem fazer do noise algo acadêmico, é deprimente. Gente que estuda "noise"... Oi? Sim, uma bobagem de playboy. Por pura alegria MACEDUSSS  & Bando resolveu apenas tocar um cover infinito - em fluxo - de Legião Urbana. Claro que falamos coisas contrárias que queriam ouvir. Claro que não gostaram da gente, e isso é bem melhor para MACEDUSSS. Hoje, para a ideia e a política de MACEDUSSS, o lixo é mais importante que o noise. O lixo é o novo pixo!

O dub é uma linguagem mais próxima da periferia por sua origem do que outros estilos experimentais?
 
Penso que sim e não, ao mesmo tempo. O Dub ainda é um subgênero pouco conhecido fora do nicho da música. Em SP, onde vivi um bom tempo, ele é bem ligado a periferia. Já no RJ, ou vivi um tempo bem menor, ele é bem presente na classe média, na zona sul. Entendo que a potencia do Dub mora na proposta política da aparelhagem e é ai que MACEDUSSS se inspira (além da estética escaleta do verão eterno, claro). De levar umas caixas de som para a rua, para o espaço público, e falar, fazer a galera dançar. O bando, ou o projeto, MACEDUSSS é isso. Fizemos apresentações assim, na rua, em lugares bem variados como Piracicaba (SP), Buenos Aires, Asunción-Paraguay, em Brasilia, Curitiba e claro, entre outras, na nossa afamada São Leopoldo. Tudo muito bem documentado e jogado na internet. Basta uma simples pesquisa que se encontra fotos e vídeos. Afinal: MACEDUSSS é um vírus. MACEDUSSS é um vírus!
 
São Hell é uma cidade estranha pra quem faz arte nela e é vista tanto como provinciana como ousada pra quem está de fora. quais são os signos que a fazem tão importante pra banda e seus signos mais visíveis?
 
Quando eu falo em São Leopoldo, é estranho, sei que me refiro a uma camada de cidade que nem deve ser a "mais real". Como vivo há anos entre temporadas na cidade e longos períodos fora, me alimento da memória e do contato íntimo com os amigos e a família que seguem em terras capilé. Mas toda cidade é um pouco isso: uma guerra de entendimentos e de códigos. Para MACEDUSSS São Hell é única pelo simples fato do projeto ter nascido em um bairro de sua periferia no ano de 1992 (a ideia), em uma rua de terra. Eu sou São Leopoldo. Eu sou o Aimoré, eu sou o Rio dos Sinos. Nossa cidade tem uma coisa que poucas tem, isso é verdade, uma rua para ser chamada de principal. Para caminharmos tranquilamente. O centro de SL é realmente um lugar mágico. É, ainda, um bom espaço para perambular, para encontros e desencontros. SL é uma cidade negra, uma cidade com forte presença cultural das religiões afro-brasileiras. Algo que nos anima bastante. Lembro de crescer ao som do atabaque. Isso, essa musicalidade, é o que Macedusss quer para si. Mais do que dub: somos atabaque! SL é uma cidade muito ligada ao carnaval, ao futebol de várzea. Na realidade SL é uma boa síntese do Brasil. MACEDUSSS é o Brasil.

O marketing do anti-marketing é a forma mais apropriada de aglutinar pessoas desencaixadas da normalidade?
 
A norma é um princípio de comparação. O normal, dentro da norma, está inscrito entre as “artes de julgar”. Isso é político. Por outro lado é também, o contrário, um movimento engraçado. É comédia. Pois quando se faz algo que não é normal. Mesmo que não seja nada demais, mas se cria alguma coisa, mesmo que seja anormal dentro dos anormais (normal?), se faz um ruído. E todos param para "olhar". É uma dobra (opa: tem alguém fazendo algo e eu preciso entender). Parece que existe uma angústia de entendimento. Todos querem saber sobre - entender - MACEDUSSS. Mesmo que o slogan seja: "MACEDUSSS uma banda de impossível compreensão". As pessoas quebram e fritam a cabeça pois querem entender. Nesse movimento é incrível como aparece gente interessada. Mas mais importante que sermos todos grupos, grupelhos, panelinhas é gerar algum desconforto intelectual, estético e político. MACEDUSSS é signatário em demasia do Didi Moco (de sua primeira fase teórica-intelectual-comédia). Na verdade MACEDUSSS é uma espécie de "Os Trapalhões" da sarjeta, dos pobres.

Macedusss na Vale Tv / divulgação

O concretismo deixou de ser elitista e está ao alcance de todos assim como o dadaísmo?

O dadaísmo, para mim, em termos de ideia de arte é passado. É ultra-passado. Mas o concretismo, como forma e principalmente enquanto arquitetura e urbanismo, é, hoje, bastante popular. Em algumas cidades mais que outras. A nossa São Léo é bastante concreta! Na medida que é, mesmo que não seja moderna, bastante modernista. Explico. Tem ligação com uma pergunta, anterior, sua. SL é bastante provinciana, tradicional. Em termos de costumes, muitas vezes, parece que parou no tempo (mesmo que seja banal falar isso). Mas em termos formais (por isso concretismo) SL é muito moderna (nista). É só caminharmos pelo centro. Nossa cidade é repleta de construções monumentais. O conjunto, por exemplo, dos três prédios redondos é ímpar! Marca todo e qualquer capilé. Pela Rua Grande encontramos prédios como o Agrimer (o Copan de SL), prédios como os do BB, do Banrisul, aquele colégio estadual que fica na esquina democrática capilé, entre outros, são exemplos fortes do modernismo em nossa cidade-colona. O próprio trocadilho: "São Léo, São Hell" é bastante envolto em um concretismo vileiro. A rodoviária, aquele prédio acanhado e hoje engolido pela parte nova (horrível, por sinal), é brutalmente modernista. Dotada de um vitral, se despedaçando é verdade, que parece uma pintura do modernismo comunista russo. SL, assim como outra cidade qualquer, é incrível. É recheada de particularidades (camadas sobrepostas por outras camadas de distintas histórias). É preciso caminhar mais. É preciso estar a pé, ligado organicamente a cidade, para observar essas coisas. Quem anda de carro o tempo todo, quem vive a cidade de forma rodoviarista ("no céu os aviões e nos pés os caminhões") não vai dar valor para a cidade que vive. Quem caminha a pé pode até sentir o cheiro-fedor do rio dos sinos (que é uma beleza em si).

Everton Luiz Cidade é músico e escritor.
Publicou os livros: Santo Pó/P, O Bonde Transmutóide, QuiÓ e ApareCida.

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