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Escola Etílica

16 ABR 2018
16 de Abril de 2018

Que calor dos infernos tava naquela terça-feira no Bar do Garça. Era semana de carnaval e fui fazer jogo do bicho. Não me recordo da dezena que joguei. Não tirei nada. Lembro das figuras que estavam no bar. Um senhor de costeletas enormes, pareciam cabos de algum revólver calibre 38, tomando cerveja de manhã cedo. E outro que usava um chapéu Panamá, de pernas cruzadas, comia ovo de codorna e fazia cruzadinha no jornal. Por serem figuras engraçadas, poderiam dar uma bela dupla de filme, algo como, “As aventuras de Costeleta e Codorna”.

Atrás do vendedor, balconista, que acredito ser o Garça, devido a circunferência de suas pernas, tinha garrafas muito antigas de bebida. Poeira, teia de aranha e butiá podre eram sua decoração. A cachaça tinha virado formol pra aquilo que um dia foi fruta. Perguntei-me, imagina o número de bêbados e figuras distintas que essas garrafas já viram?

Não existe lugar mais folclórico no mundo que um boteco. Ao entrar na porta você para em outra dimensão. Deve ser o jeito do lugar, às pessoas que ali estão, alguns recortes de jornais velhos nas paredes, o frango girando no espeto, a televisão em preto e branco. Características próprias desses lugares os transformam em redutos de ficção.

Quando criança, eu visitava com meu avô caminhoneiro, um açougue que tinham um boteco na frente. Aquele de lá era surreal. Pra se ter uma ideia, um dos atendentes era muito parecido com o garoto que estampava as capas da revista norte americana de comédia, “Mad”. Para quem não conhece, era um menino orelhudo, rosto cheio de sardas e com os dentes separados. Sid era o apelido dele. Tinha à cabeça bem pequena em relação ao corpo. Sujeito de outra dimensão mesmo.

Imagina o número de histórias diferentes que donos e balconistas de botecos não ouviram ao longo de suas carreiras como “botequeiros”? Devem ser proporcionais ao tamanho daquela lista de doses “penduradas” que eles escrevem em suas cadernetas. Conheci um frequentador do Garça que era o rei do fiado. O Juca. Esse conseguiu a façanha de pousar dentro do estabelecimento. Tamanho amor ao trago nunca vi.

Uma coisa que aprendi visitando alguns botecos é que luxo nunca vai ser superior à camaradagem. Você repara que não é à beleza do lugar que atrai aquelas pessoas que estão quase sempre ali, mas sim quem está ali. Não existe esnobação ou exibicionismo de status nesses locais. Diferentes de alguns pubs de Santa Maria que só faltam ter que estender tapete vermelho para algumas “celebridades” da cidade.

Perguntei para o balconista quando que saía o resultado do jogo. Dei tchau pro “Costeleta” e pro “Codorna”. Fui embora. Ali terminava mais uma aula de boteco na minha vida.


Rafael Marques de Bem é Jornalista, Radialista (diz ele).

Apaixonado por música retrô e entretenimento. Já foi pego pondo carta embaixo da porta.  

E diz que mais legal que fazer rádio é divertir e fazer rir quem está te ouvindo!

Foto original: tcheazevedo.blogspot.com.br

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