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Move Yourself

26 MAR 2018
26 de Março de 2018


Existe uma banda britânica de rock progressivo que sou fã de carteirinha. Fiquei mais admirado ainda pelo trabalho da Yes, depois que percebi a capacidade que eles tiveram de prever o futuro. Do sentimento de solidão que viria atormentar uma parcela da sociedade. Nos anos 80, para ser mais exato, em 1983, o conjunto da terra do Big Ben, lançava o single Owner of a lonely heart”. Traduzindo para o bom e velho Português, seria algo como: “Dono de Um Coração Solitário”.

Não sou nenhum estudioso da humanidade ou funcionário do Inmetro para saber que vivemos numa época onde as pessoas, não vou dizer todas, nunca tiveram antes tantas opções de conforto. Refiro-me a qualquer tipo de mordomia. Desde o controle remoto da televisão, aos aplicativos de parceiros “delivery” comoTinder e Happn. E para qualquer problema, uma “boletinha” é receitada. Até para aqueles que sofrem de solteirice.

Mas o que o som da Yes tem a haver com o bem-estar de hoje? Tudo. Se analisar a letra da música, verá que é sobre uma pessoa solteira que se sente melhor sendo dona de um “coração solitário” do que de um “coração partido”. Talvez seja esse o único problema do século XXI que comodidade alguma ainda conseguiu solucionar. À solidão. Bastante confundida com solteirice. Pra arrumar companhia hoje, é só abrir conta nas mais diversas redes sociais que existem e puxar papo com alguém. Ou baixar aplicativo de “xaveco” e tentar arrumar algum acompanhante.

Acho ridículo tachar uma pessoa solteira de solitária. O único caso de solidão que percebo como alguém que não possui ninguém no mundo, são aquelas pessoas que dormem embaixo de ponte e marquise das lojas. Na maioria dos casos, todos nós possuímos parentes e amigos. A principal dor de cabeça de muitos, hoje nesse mundo de conforto é não ter ninguém para “dividir” o lençol. Isso é carência. Algo que só o contato humano pode solucionar. Telinha que acende luz pra passar o dedo não consegue sanar esse problema.

O hit “Owner of a lonely heart” foi composto há mais de trinta anos. Será que naquela época já existia queixa de alguém estar solteiro no mundo? Pelo visto sim, mas o contato entre as pessoas era muito mais pessoal e humano. Não existia Facebook e Smartphone. Não vejo essa solteirice como solitude. Percebo-a como liberdade para trilhar um caminho até o “topo da montanha”, alcançar o objetivo que tu pretendes pra tua vida. Se conhecer melhor. Aprender a gostar da tua própria companhia. Afinal, tu és o eixo principal da tua existência. À canção é composta da seguinte forma:

“Move yourself/ Mova-se

You always lived your life/ Você sempre viveu sua vida;

Never thinking of the future/ Nunca pensando no futuro;

Prove yourself/ Submeta-se,

You are the move you make/ você é o movimento que faz;

Take your chances, win or loser/ Tenha suas chances, vença ou perda;”



Forte indício de que era sobre uma pessoa solteira que estava em busca de algum objetivo pessoal ou alguém que tinha levado um belo pé nas nádegas. Nunca tecnologia alguma que prende as pessoas em suas bolhas pessoais, vai conseguir substituir o bom e velho “olho no olho”. Deixar de viver o real para ter a falsa ilusão de que o virtual pode substituir o contato pessoal. O contato com o mundo externo.

Não consigo ter essa capacidade de “curtir” alguém apenas por foto. E outra que não tô nem aí pra relação alguma. Quero escalar o topo da minha montanha, bem tranquilo. Sem ter nada com que me importar a não ser onde coloco os pés. A Yes foi mais genial ainda quando comparou que para alcançar o objetivo da tua vida, quanto pra arrumar uma pessoa pra dividir este coração solitário com alguém, é preciso fazer aquilo que Jon Anderson canta há mais de trinta anos:

Move yourself!


Rafael Marques de Bem é Jornalista, Radialista (diz ele).

Apaixonado por música retrô e entretenimento. Já foi pego pondo carta embaixo da porta.  

E diz que mais legal que fazer rádio é divertir e fazer rir quem está te ouvindo!


Fotografia: Phoebe por Michael D Dunn.


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