Menu

Ô Anderson Leonardo...

19 MAR 2018
19 de Março de 2018

Ô Anderson Leonardo... 

  

Esses dias quando peguei o ônibus para ir na Rádio Armazém, tive um breve vislumbre do passado. Como de costume o transporte público de cada dia estava lotado e fui de pé. Ônibus pode ser um livro de histórias. Têm aqueles passageiros que de forma visível ficam pensando no que fizeram durante o dia, nas suas vidas, o que vão fazer depois da saída do ônibus. Têm aqueles que preferem compartilhar um pouco da sua história em alto e bom som.

Estava no corredor e ao meu lado direito, tinha duas senhoras. Uma delas fez eu voltar aos anos 90. Num determinado ponto da conversa, a que parecia irmã da cozinheira Palmirinha, diz:

- Essa juventude só sabe assistir novela com gente pelada e não procuram mais acreditar em Deus. A televisão de antes sabia educar mais que hoje.

Pois bem vovó. Tu acabaste de me levar ao um fatídico domingo da década de 1990. O dia começava com o Ayrton Senna ganhando algum GP na Fórmula-1. Foi à última vez que deu gosto de acordar cedo aos domingos. À cereja do bolo era a programação que passava de tarde. Com a censura que ronda por tudo hoje, televisão no Brasil deixaria de existir.

No canal SBT passava à famosa “Banheira do Gugu”. Algum cantor ou artista em voga na mídia, era convidado a participar do quadro. O objetivo da brincadeira era pegar o maior número de sabonetes no tempo estipulado de 30 segundos, por exemplo. Uma mulher de biquíni que tapava apenas o essencial, tentava a todo custo atrapalhar o concorrente. Figuras como Tiririca, Mari Alexandre e Anderson do Molejo eram frequentadores assíduos da pervertida banheira. O mais lembrado até hoje não eram os closes sacanas do operador de câmera. Era à música que lembrava uma espécie de ritual em alguma tribo canibal. A letra era tipo:

  

Uba uba uba hey! 

Uba uba uba hey! 

Baba tum barabarabá 

Baba tum barabarabá  

Tchacatchacabum tchacabum tchacabum bum! 

Tchacatchacabum tchacabum tchacabum bum!  

     

Não dava para entender nada. Uma forma de homenagear à mentalidade do público que gastava seu tempo vendo os corpos ensaboados na luta pelo sabonete proibido.  Como podemos ver vovó, era algo bastante educativo e não tinha nudez. 

Naquela época o som que embalava o domingão era algum grupo de samba e pagode. “Mamonas Assassinas”, “Molejão”, “É o Tchan’, “Art Popular’’e“Katinguelê” eram os “Beatles” dominicais. Infâncias foram marcadas por hits como, “Pimpolho”, “Brincadeira de Criança”, “Ralando o Tchan” e “Vira Vira”. Músicas atuais que são crucificadas, passariam vergonha se comparadas com às letras das que embalavam as tardes de domingo.  

Violência também moldava à programação na televisão durante à semana. Pegando hoje como referência, se tu quiseres levar teu sobrinho para assistir algum filme de terror no cinema, só faltam pedir exame de sangue e tirar à pressão da criança antes da sessão.  

Naquela época, no ano de 1996, a “Band” passava o irreverente “Cine Trash”, apresentado pelo ícone do terror tupiniquim, “Zé do Caixão”. O programa ia ao ar a partir das 15 horas. Horário perfeito para passar filmes como, “Halloween” e “Sexta-Feira 13”. Muitas crianças engraxaram os dedos procurando “Tazo” no pacote de “ Cheetos” enquanto arregalavam os olhos assistindo o “Jason” dar um “fatality” em algum jovem pelado no “Crystal Lake”.  

De manhã, os desenhos exibidos pela Manchete não ficavam muito atrás em termos de violência. A cena mais antológica da animação “Cavaleiros do Zodíaco” é no primeiro episódio. Naquela manhã, perto do meio dia, lembro de assistir no programa da “Mara Maravilha”, uma orelha sendo decepada e caindo aos pés do gigante “Cassios” que disputava com “Seiya” à armadura de Pégaso. No mínimo, hoje, isso daria passeata na praça Saldanha Marinho ou textão no “Facebook”. 

Pela noite, isso entre os anos de 97 e 98, era transmitido o “Ratinho Livre” que mais tarde passou a se chamar “Programa do Ratinho”. Não vai existir programa mais bizarro que aquele. Não adianta. Nem se algum diretor de cinema como Coppola se especializar em bizarrice ele conseguirá chegar naquele nível. O programa tinha quadros bestas como o “Exame de DNA” e outros apelativos. Pessoas com alguma doença grave ou portadora de deformidade física eram convidadas e exibidas ao vivo no programa. O programa teve casos memoráveis como o homem grávido e a mulher que teve o braço comido pelo cachorro. Muita educação como podemos ver.  

Pela tardinha, tinha o "Aqui Agora" com o lendário repórter de voz inconfundível e camisas típicas de pular micareta, Gil Gomes. Apresentava o "Histórias que o povo conta". Uma espécie de "Cine Trash" jornalístico que mostrava reportagens como o homem que morreu com 50 facadas. 

Às novelas eram uma mistura de sons de tiro com rangido dos pés de alguma cama. Creio que alguma criança com sede gritou pedindo um copo de água para os pais porquê tinha medo de se topar com o vilão “Cadeirudo” pelos corredores da casa. 

Nesta época, televisão era terra sem lei no país. Alguns dizem que era melhor. Tinha mais liberdade. Que o “mimimi” não existia. O desagrado sempre existiu. Quem não gostava, não tinha onde expressar o seu descontentamento. Onde tu irias publicar “textão”? No poste? De certa forma temos alguma “lei” nesta terra que antes era sem limites. Hoje, tem “Youtube” e “Netflix”. Tu fazes à tua própria programação. 

O ônibus chegou no meu destino, desci e pensei: 

- Pera, uva, maçã ou salada mista?  



Imagem: Shutterstock
Texto: Rafael M. de Bem

Voltar
Tenha também o seu site. É grátis!