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Segunda-feira vermelho rubi

11 MAR 2018
11 de Março de 2018

Aquela segunda-feira era sempre alaranjada. Dizem que a cor laranja representa o fascínio. Pode até ser. Naquela tarde de segunda, após às 17:30 ou 17:00, tinha três fatores que me fascinavam. O barulho do motor que era muito alto. Quando o caminhão fazia a curva na esquina da Avenida Presidente Vargas e dava a sensação de que entraria na floricultura Natura. O anel do barbeiro que tinha um rubi vermelho gigante. Com aquilo pendurado no dedo, parecia integrante do grupo dos jovens protetores que invocavam o Capitão Planeta.

O laranja também poderia significar nostalgia. A cada três meses ou mais, dependia muito da velocidade que meu cabelo crescia, à tardinha, depois da escola, eu pegava carona no caminhão boiadeiro do meu avô e ia para a barbearia Veneza. Ela ainda existe. No mesmo lugar. No mesmo endereço. Era sempre na segunda-feira meu dia de cortar o cabelo. Mas não era o passeio ou a barbearia que me fascinava. Existia algo naquele local que era diferente dos lugares que eu costumava frequentar. Sentia-me muito bem lá.

Era modesta. Possuía uma geladeira que continha revistas de sacanagem. Uma cadeira antiga de cortar cabelo. Uma bola verde de vidro, que ficava em cima da geladeira. Televisão não havia. Contava com um ventilador que mal girava. Era só pra espantar mosca. E não me falhando a memória, conservava na parede um quadro. Acho que era Jesus ou outra figura religiosa. Se analisar os “alhos e bugalhos” da situação, não era um lugar chamativo para uma criança de sete anos.

Vinte e um anos depois descobri o que tornava aquele lugar especial e fascinante. Era a simples companhia do meu avô. Eu sentava na cadeira do barbeiro e ele como de praxe, tirava do bolso da camisa a carteira de cigarros. Ficava na calçada, escorado na janela, fumando. Era o meu momento com ele. Eu adorava andar de caminhão. Era verde, modelo boiadeiro cara chata 611. A bordo dele tu sentia-se dono do mundo e na rua os carros e pedestres eram minúsculos. Lembro que nessa época, isso lá por 1996, 97, os pais dos meus colegas tinham o carro da moda. Era o Ford KA, redondinho. Pensava, o caminhão do meu avô esmaga esse “Kinder Ovo”.

A companhia da pessoa que está contigo é que torna o lugar agradável. Pode ser o local mais chato do mundo, mas se tu estiveres acompanhado da pessoa certa, aquele ambiente torna-se maravilhoso. Até hoje frequento a barbearia. Não é mais como antes.

O caminhão se ainda existe? Não sei. Meu avô, não. Pelo menos não na Terra. Respondi o porquê do recinto não ser mais o mesmo. A última vez que cortei o cabelo foi em fevereiro. Juro que vi alguém fumando na janela. Foi só nostalgia.

Outro fator também me fascinava. Quando descia a Avenida Ângelo Bolson a bordo do caminhão do meu avô, o céu que despontava no horizonte era sempre alaranjado. Prenúncio de saudade pro resto da vida...



Por Rafael Marques de Bem





Rafael Marques de Bem é Jornalista, Radialista (diz ele) que até Deus faz bullying.

Apaixonado por música retrô e entretenimento. Já foi pego pondo carta embaixo da porta.  

E diz que mais legal que fazer rádio é divertir e fazer rir quem está te ouvindo!


Rafael produz e apresenta o programa Mixturação, quintas às 19:00 ao vivo aqui na Rádio Armazém.

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