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A doce melancolia da Não Não-Eu

03 FEV 2018
03 de Fevereiro de 2018

Certa vez li uma entrevista do Robert Smith do Cure em que ele afirmava que admitir influências é como confessar um crime. Entre uma risada desconfiada e a certeza gélida eu me rendi a essa teoria, da qual carrego comigo até hoje.

Então sempre que vou ouvir um novo trabalho de algum artista, eu desvinculo este “peso” da influência e vinculo-a como referência, assim podemos lavar as mãos deste “crime”.

 

Com grata surpresa, no ano passado conheci a Não Não-Eu, cheia de grandes referências da música dark com seus sintetizadores e de suas letras melancólicas, misturado com um suspiro de algo novo no ar para o mundo da música, e é justamente essa mistura que me chamou a atenção...


Foto: Pedro Castro


Caprichando nas estéticas sonoras e visuais, a Não Não-Eu lançou no ano passado o seu primeiro e homônimo trabalho pelo selo PWR Records de Recife (que diga-se de passagem vem nos brindando com ótimos lançamentos musicais e trabalham exclusivamente com mulheres no seu cast), e está no catálogo da Label Blade Recods do Texas.

 

A Não Não-Eu vem de Belo Horizonte e é formada por Pâmilla Vilas Boas (vocal, guitarra, synths) e Cláudio Valentin (baixo, synts) e renasceu das cinzas da Lollipop Chinatown, ex banda dos integrantes após uma transformação de linguagem.

 

O trabalho chama bastante a atenção pela forte personalidade nas composições, tanto no instrumental quanto no lírico e foi mixado por Diego Strausz que também trabalhou com Alice Caymmi e Mahmundi.

“Eu quero fugir” (a minha preferida) que introduz o disco, demonstra bem o porque a banda teve ótima repercussão de público e de crítica de pelos principais veículos de música independente do país como, Revista Noize, Tenho Mais Discos Que Amigos, Miojo Indie e New Yeah Música.



Confira abaixo a entrevista exclusiva com a Pamilla:


"Cada banda ou artista é uma “entidade”, é preciso respeitar os limites da linguagem de cada um".


De onde veio a necessidade de criação de uma nova banda com outra identidade depois da ex banda de vocês?

 

Até então a gente só tinha lançado um EP com a Lollipop e nossa vontade sempre foi gravar um disco cheio. Em 2016 eu e Cláudio tivemos uma espécie de “surto” rs e decidimos gravar esse disco tão sonhado, simplesmente gravar do jeito que a gente conseguisse. Foi aí que começamos a experimentar novos sons. Eu comecei a prestar atenção de verdade nas letras e comecei a me perguntar se aquele som realmente tinha conexão com os sentimentos que gostaríamos de transmitir. Cláudio começou a estudar ableton, música eletrônica etc - a gente já usava sons eletrônicos, mas decidimos ir mais fundo. Algumas músicas antigas optamos por reestruturar e algumas nós abandonamos. Nesse processo, percebemos que a linguagem havia mudado completamente, então era preciso mudar de nome, aí caiu a ficha de que era preciso começar do zero. Cada banda ou artista é uma “entidade”, é preciso respeitar os limites da linguagem de cada um. Se você muda completamente a linguagem, é legal mudar também o projeto. Recomeçar sempre dá medo, mas faz parte. Em 2017, eu estava finalizando meu mestrado em antropologia e foi do meu processo de escrita que surgiu o nome “Não Não-Eu” que é um conceito do Richard Schechner. Não Não-Eu é o momento em que percebemos a distância entre o que somos e o que representamos. Como as músicas falam de desejos, sonhos, nosso lado obscuro, essa dificuldade de expressar nossa essência, acho que o nome caiu bem rsrs...

 

Quais os frutos que a banda colheu deste primeiro trabalho da Não Não-Eu?

Tem sido tudo muito incrível desde o lançamento da Não Não-Eu e do disco. Eu me sinto tão feliz por ter conseguido (até que enfim rs) expressar musicalmente algo tão verdadeiro, de ter assumido desejos, de ter ido fundo num projeto. Dá muito trabalho e exige muita resiliência levar um projeto musical, mas acho que de alguma forma essa energia boa se dispersa. Muitos veículos legais, da galera que nós admiramos, escreveu sobre o disco, uma galera da gringa curtiu o som, eu comecei a me sentir mais presente nos palcos e fizemos shows muito legais desde então. Pessoas nos escrevem dizendo que gostou muito do som de lugares que a gente nem imaginava e isso é maravilhoso. A música faz parte do ser humano (do não humano também), não existe nenhum grupo, em qualquer parte desse mundo, que não se expresse musicalmente. Então é realmente forte e transformador jogar para o mundo algo que é tão sincero e sentir que outras pessoas compartilham disso. é claro que o mais desafiador nos dias de hoje é fazer nosso som chegar, conquistar a atenção das pessoas, mas tudo é um processo e eu espero me aprofundar ainda mais nessa proposta.

 

Quais os planos da banda para o futuro?

Vamos lançar um disco de remixes, se tudo der certo ainda em fevereiro, temos um single pronto que devemos lançar por volta de abril e queremos produzir outro clipe. Estamos apostando num show em formato duo (eu e Cláudio) e devemos fazer uma tour no sul ainda esse semestre, quem sabe não passamos por Santa Maria também. Temos shows marcados em BH e RJ e a ideia agora é circular e produzir mais conteúdo.

 


Texto por Edson Kah

Agradecimento espacial à Pamilla Vilas Boas


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