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Zé do Caroço, clássico de Leci Brandão, ganha clipe da banda Canto Cego

07 NOV 2017
07 de Novembro de 2017

O peso das guitarras da Canto Cego se encontra com a força de “Zé do Caroço”, o ilustre personagem imortalizado por Leci Brandão, em 1978. A canção de quase quatro décadas permanece atual quando se observa o tratamento destinado aos moradores da periferia do Rio. No clipe, os “Zé do Caroço” atuais são retratados em suas primeiras horas do dia. Muito mais do que levar para a tela os moradores de diversas localidades do subúrbio do Rio, o vídeo deseja mostrar que a liderança proposta na clássica canção está viva na rotina das pessoas comuns.


“Antes de tudo, as favelas e periferias são muito mais o espaço de pessoas honestas e trabalhadoras do que lugares onde a criminalidade prospera. Infelizmente, a informação massificada de violência mascara a natureza incrível dessas pessoas que estão diariamente dando o melhor de si. Nossa ideia foi trazer pra perto esses heróis da vida real. Líderes que estão passando ao nosso lado todos os dias. É fundamental a gente olhar pros lados, reconhecer e se identificar com a força dessas personalidades”, elucida Roberta Dittz, vocalista e responsável pela direção do clipe.

Figura marcante na história do Morro do Pau da Bandeira, localizado em Vila Isabel, o líder comunitário Zé do Caroço era um policial aposentado chamado José Mendes da Silva. Conhecido pelo inusitado apelido e dedicado a defender a favela, ele colocou um alto-falante na laje de sua casa para transmitir notícias relevantes aos moradores da redondeza. Foi quando a esposa de um militar que morava em rua próxima ao Morro reclamou que o serviço de Zé do Caroço a incomodava quando assistia à novela.


A história foi contada a Leci Brandão (foto), na época moradora da Mangueira, que compôs a música lamentando que não havia figura parecida em seu bairro, e elogiando a iniciativa de Zé, que fornecia informação alternativa para os moradores. A canção “Zé do Caroço” é a mais regravada de Leci Brandão, segundo levantamento do Ecad, e também a mais polêmica. Quando a sambista quis inserir a música em seu sexto disco, que seria lançado em 1981, a Polydor proibiu. Corajosa, Leci rescindiu o contrato e gravou outro álbum em 85, quando estava na gravadora Copacabana.

Os músicos Ruth Rosa (bateria), Rodrigo Solidade (guitarra), Magrão (baixo), além de Roberta, acompanharam o descaso do Estado em relação à segurança pública e o acesso a serviços básicos. No clipe da Canto Cego, a banda procura resgatar a autoestima dos moradores por meio de exemplos positivos. “Todo mundo se entristece e sente o peso dessa violência toda, mas é importante reconhecer nossa força natural, o que nos impulsiona em meio a tantos cenários ruins, e recuperar pelo menos parte da confiança”, completa Roberta.
O vídeo traz artistas, ativistas e líderes sociais do Complexo do Alemão, Bangu e Nova Iguaçu, além da própria Leci, em participação especial.

“Escolhemos essas pessoas com base em projetos que admiramos. Moramos perto do Alemão, o Rodrigo cresceu lá, de forma que já sabíamos quem poderia colaborar com nossa ideia. E nossa maior honra é ter também a Leci Brandão, compositora da música, uma mulher sambista que tem uma trajetória linda e passou por diversas gerações do samba. A gente já amava a música e ela, e tê-la no clipe é algo muito precioso. Mas tiveram muitas outras participações que vieram das situações dos lugares por onde circulamos, e que expressam o dia a dia de muitas pessoas. A professora é a mãe do Rodrigo que realmente é professora, e temos a avó, primo e tio dele também. A sobrinha da Ruth aparece indo pra escola. Nossos líderes estão por todo lado”, conta Roberta.

É por meio de sua música que eles levam o nome da periferia carioca para todo o mundo. Antes mesmo do disco de estreia, “Valente” (2016), o grupo já era conhecido graças à participação no Festival de Jazz de Montreux (2015), na Suíça, onde fizeram uma pequena turnê; além de passagens no Planeta Rock (2014) e a conquista do primeiro lugar no Festival da Nova Música Brasileira (2012). Em destaque no repertório, sempre aparecia sua versão para o clássico de Leci Brandão. Mesmo após tantos anos, “Zé do Caroço” ainda faz sentido para os moradores da periferia do Rio.
“Por mais que a gente não viva uma ditadura anunciada, e a liberdade de expressão esteja superficialmente garantida, a desigualdade econômica e de informação ainda perdura por todos os lados. A arte de uma maneira geral tem esse poder de falar com vários tempos, e com essa música não é diferente. A forma simples e direta que ela aborda o caos e a esperança é muito atual. Ainda precisamos de novos líderes e muitos Zés do Caroço. Ainda bem que eles continuam nascendo”, finaliza Roberta.

Se reconectando com as raízes de seus familiares, a Canto Cego embarca para sua primeira turnê pelo nordeste em novembro. Entre os dias 10 e 17/11, a banda passa por Salvador, Recife, João Pessoa, Mossoró e Fortaleza.

Por Edson Kah via Júlia Ourique

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